quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Salas para Fumadores, Salas para Não Fumadores, Salas para Idiotas Chapados, para Gordos e para Esqueletos Vaidosos, Salas para Pessoas Ricas, Salas para Ricas Pessoas e para Pessoas de Rei na Barriga, Pés Rapados e Pobres Envergonhados, Salas para Anorecticas, para Bulímicos e para os de Boa Boca.
Há Salas para Refilões, para Submissos, para Neuróticos, Esquizofrénicos e outros com Mania da Perseguição, Salas para Pessoas com Chiliques, Achaques, Trecos, Frenicoques, Chérnicos e outros Dramas.
Há Salas para Monogâmicos, Poligâmicos, Salas para os que Enganam, os Enganados, para os Parvos e para os que se Fazem de Parvos.
Há Salas para Acalorados e Friorentos, para os que Andam aos Pares, para Lobos Solitários, para os que se Rodeiam de Muitos ou dos Que Não Valem Mais que Zero.
Há Salas para os Grandes Amigos, Amigos do Peito, de Ocasião e Amigos da Onça, Salas para Quem Acredita no Pai Natal, no Coelhinho da Páscoa, no Par Perfeito e Outros Mitos, Salas para Empregados, Desempregados e Mal Empregados.
Há Salas para os que Vão Ler isto, para os que vão Ler na Diagonal e para os que Dirão: Bah!
Quanto a mim, mudei-me para o Quarto.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Eu...
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca
sábado, 19 de novembro de 2011
Morango em Metades
Fechava os olhos e ainda assim o via.
Dormia à beira de uma cama somítica deixando vago o espaço que a ele pertencia.
O espaço, frio, lembrava-lhe não a sua ausência, mas o primeiro ímpeto de serenar esse frio na presença. Uma pequena manta deixa braços em suspiros de abraços, de entrelaços…
Não mais o deixou; nem nas distâncias, nem no sono, nem nas fúrias que os arrebatavam … sabiam-se em combustão, mas de algo bom - mesmo no limite - que as exigências e as faltas conheciam os seus donos e os seus danados e negros corações.
Fechava os olhos e ainda assim o via; mesmo no sono e na ausência se pertenciam, sem que ninguém mais existisse.
E se um dia partiram, ninguém sabe…
Juram que sempre os viram juntos - ainda hoje, passados trezentos e setenta e cinco anos (souberam pelos seus avós e estes pelos seus) - com a mesma idade de outrora, braços entrelaçados; um só, como eles diziam; sem darem conta do mundo.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
The horrors of sleep
Rememberance never dies.
My soul is given to mystery,
And lives in sighs.
Sleep brings no rest to me;
The shadows of the dead
My wakening eyes may never see
Surround my bed.
Sleep brings no hope to me,
In soundest sleep they come,
And with their doleful imag'ry
Deepen the gloom.
Sleep brings no strength to me,
No power renewed to brave;
I only sail a wilder sea,
A darker wave.
Sleep brings no friend to me
to soothe and aid to bear;
They all gaze on, how scornfully,
And I despair.
Sleep brings no wish to fret
My harrassed heart beneath;
My only wish is to forget
In endless sleep of death.
Emily Bronte
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Exit
Uma morreu de doença prolongada (uma unha há muito encravada causou-lhe dores alucinantes, passou-se, atirou-se da janela).
A segunda morreu de canseira (jurou dar a volta ao mundo de bicicleta e não teve pulmões para tal feito. Finou-se).
A terceira matou-se, cortou os pulsos, por desespero. Simplesmente.
domingo, 21 de agosto de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Anos às voltas e voltas e voltas... deixaram-na tonta.
Depois de cabecear a bola de espelhos num dos seus passos de reviravolta e troca o passo e volta ao mesmo, desistiu.
Todos os espelhinhos, os reflexos de si, dele, estilhaçaram-se, restando-se, eles, em pedaços distorcidos, irremediavelmente separados, perdidos de si, deles, de um só, de um voltar...
Uma vassoura e uma pequena pá, bastaram. Assunto arrumado!
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
terça-feira, 9 de agosto de 2011
De peúgas apenas...
Sun of the sleepless! melancholy star!
Whose tearful beam glows tremulously far,
That show’st the darkness thou canst not dispel,
How like art thou to joy remember’d well!
So gleams the past, the light of other days,
Which shines, but warms not with its powerless rays;
A night-beam Sorrow watcheth to behold,
Distinct but distant — clear — but, oh how cold!
Recitava ele, na sua imaculada cozinha, enquanto segurava uma coxa de frango na púcara, tendo por assistência o estendal improvisado das suas peúgas pretas.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Regras de utilização na repetição de peças no dia seguinte
Como tal, aconselha-se vivamente a dispensa de toda e qualquer peça que atrapalhe movimentos, assim como a potencialmente "amassável", durante exercícios de concentração, de respiração, de flexibilidade ou que possa causar qualquer tipo de afogueamento ou a tendência para adormecer na sua conclusão. Ou na pior das hipóteses, durante a sua execução.
...
sábado, 16 de julho de 2011
Era uma vez...
(um pingo de mau gosto às vezes cai bem)
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Euristides Clumsy (continuação)
Sem alongar demasiado a história, que contar tudo era fazer pouco de desgraça alheia, há que saber que Euristides nunca foi feliz.
Tinha ouvido uns zunzuns de colegas em conversas de balneário do quão tinha sido excelente (naturalmente os termos não seriam estes , mas Clumsy recusava certos vocabulários que agora até o faziam tremer) o que a menina X tinha feito da sua cintura para baixo, do seu pescoço para cima... um vai-vem de elevador, mais não sei que objecto a entrar, mais não sei o quê que faz cócegas, mais o cinto... ai o cinto!!! que ele, infelizmente agora conhecia e que não entendia como alguém suspirava por tal... Caramba, ele era um homem sério! E muito homem!
Toda esta parafernália havia de acompanha-lo até à sua morte e a sua sorte e falta de jeito também, mesmo depois de morrer...
Pois um dia, sua esposa, achou que a relação teria que ser apimentada. Que Euristides era muito reprimido, que tinha que começar a gozar os prazeres da carne a sós, de forma a entender o seu corpo, as suas preferências para poder depois partir para aventuras mais altas a dois ou a três ou... sabe Deus, aquela mulher não queria parar!
Achou ela por bem, então, inicia-lo na prática de asfixia auto-erótica. Deu-lhe umas dicas e tal, umas pecitas para ele escolher, umas fotos dela supostamente interessantes e disse que ia filmar, para garantir que ele tentava, que se esforçava pela relação saudavel de ambos.
Euristides apenas suspirava ao ouvir a palavra saudavel...
Que assim fosse, pensou, e tentou com uma espécia de corda macia. Arquitectou uma forma de a prender à porta do quarto, junto aos degraus que desciam para o corredor e garantiu que ao colocar no seu inocente pescoço, não ficaria pendurado sem querer. Não que a ideia de "se ir" de vez lhe parecesse, naquele momento, antipática...
Ficou a sessão marcada para o dia seguinte, com tempo e disposição.
Sua esposa, de tão hilariante, nessa noite não o largava. E ele sem achar gracinha nenhuma, que tinha andado a limpar o quarto, a sala, toda a casa, pois aquela mulher deixava os "seus objectos" por todo o lado... Até aquele cone inexplicavel que toda a gente pensava que era daqueles objectos que perfumam a casa, sempre ali, pousado na mesa de café, para esfregar a depravação na cara de todos, o tirava já do sério!
E ela ainda assim, ali andava, atrás dele, com aquele zunido de pilhas a fazer coro com as promessas de o levar ao céu.
Só a conseguiu fazer desistir, sossegando-a com a ideia de querer estar fresco para a experiência seguinte, largando ela o objecto ameaçador no mesmo segundo.
E assim dormiram... mal, muito mal. Ela com a excitação e ele a tremer o dente.
Chegou a hora fatídica, tudo a ser filmado e ele a preparar o cenário...
Com a corda ao pescoço, foi ganhando coragem para se deixar pendurar um pouco, mais um pouco, quando... escorrega naquele maldito objecto cilindrico a pilhas, fazendo resvalar os seus pés para os degraus, perdendo o controlo dos pés, das mãos, do pescoço, da vida...
A sua morte foi a derradeira vergonha, pelo que não vale a pena pormenoriza-la. Os seus sogros ficaram pasmos, sem perceber muito bem, mas desconfiando de algo pouco digno e sua esposa ficou desgostosa e sem vítima.
Tentou abafar-se qualquer coisa suspeita e tratou-se do funeral.
Sua viúva resolveu ir sozinha, à frente, no carro funerário e levou consigo uns objectos pesssoais para se lembrar do seu falecido amado. Um desses objectos, para espanto do condutor, era o bendito cinto... Pois aconteceu que a parte interessante do cinto, quando este caiu, se foi colocar ao pé do travão!
Toda a situação caricata atrapalhou o condutor que não conseguiu travar, estando um membro viril de borracha a prender o pedal, e ao tentar os pedais todos acabou a acelerar e a embater nos carros da frente, causando choques em cadeia.
É que quis o destino que nesse dia além do funeral, houvesse um casamento e tudo a ir para a mesma igreja numa confusão de horários, de carros, de gentes!
Ou não fosse o funeral de Clumsy...
Foi um acidente de tal forma brutal, que as mortes foram inúmeras e ninguém sabia quem era quem e onde pertencia, o caixão tinha saltado pelos ares, tinha-se aberto, voando Clumsy livremente, não podendo no entanto já gozar o momento.
- Mas afinal onde está o morto, pelo amor de Deus??!!
- Mas qual deles?!
- O morto! O morto oficial! O que seguia para o cemitério!
- Hummm... eventualmente é onde todos vão parar...
- Estou a perder as estribeiras! Refiro-me ao morto, o que já o estava efectivamente, o que ia no carro funerário!
- Aaaaahhh! Perdão! Mas então, é só ver quem está no caixão!
- Você vê algum caixão, homem? Vê? É o fim, é o fim!!! Nunca se viu nada assim desde que aqui ando... no maximo saltou-me um caixão da carrinha numa auto-estrada, mas ninguém deu conta e enfiei-o de novo lá dentro... Ai de mim!!! Que tipo de publicidade isto me vai trazer... Onde é que o morto me foi parar...
- Simples! É só ver qual dos homens está de fato!
- Está a gozar comigo? Já viu bem os outros carros? Os outros homens? Havia um casamento, por Deus! Está tudo vestido a rigor e até os homens estão maquilhados!!! No meu tempo isto não era assim... Já nem sei se foi sorte eu sobreviver, valha-me Deus!
- Peça a alguém para o reconhecer!!
- A noiva morreu, o sogros morreram, os pais também... sobrou um primo afastado da noiva e uma avó. O primo afastado nem o conhecia de lado nenhum, ia vê-lo pela primeira vez... e a avó, pobre senhora, nem se lembrava do que fazia ali... Oh desgraça!!
Pois bem... depois de horas de desespero, já que a maioria estava morta, ficaram os vivos a dividir quem conheciam.
O resto... Bom, o resto é melhor nem contar.
Digamos cá entre nós que Euristides Clumsy ficou enterrado com direito uma campa com o nome de um tio de sua esposa, muito conhecido por adorar vestir-se de bailarina, fazendo pliés com um nó ao pescoço e sentando-se alternadamente num cone que todos julgavam ser uma espécie de Brise contínuo...
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Carmen Miranda de trazer por casa
Também não se deve querer a caír de podre, já não traz prazer nem doçura e estar bichada é também aqui uma grande probabilidade.
Deve desejar-se a fruta madura, no ponto, pronta a ser saboreada em bom tempo, com calma, com casca ou descascada. Logo pela manhã, de sobremesa ou mesmo antes da refeição.
Mas achar boa fruta nos dias de hoje...
sábado, 25 de setembro de 2010
Euristides Clumsy (actualizado)
- Mas qual deles?!
- O morto! O morto oficial! O que seguia para o cemitério!
- Hummm... eventualmente é onde todos vão parar...
- Estou a perder as estribeiras! Refiro-me ao morto, o que já o estava efectivamente, o que ia no carro funerário!
- Aaaaahhh! Perdão! Mas então, é só...
Ok. Vamos lá voltar atrás.
Porque raio há tanta dificuldade em encontrar um morto que segue, supostamente, num carro funerário?!
A razão é muito simples, dentro da confusão própria desta história.
Comecemos por conhecer Euristides Clumsy.
Euristides Clumsy era um tipo desastrado. Tinha herdado este nome porque sua mãe, Maria Clumsy, casara em Las Vegas, não no seu estado mais elucidado, e quis assim o destino que as núpcias fossem frutíferas, em conjunto com seu recente marido, Edward Clumsy, como convinha, e daí nascesse esta desafortunada criatura.
Mesmo à nascença não esteve na sua maior graça ao aparecer ao mundo, pois ao cortarem-lhe o cordão umbilical, resolveu dar um delicado mexer de mãos, não fossem duvidar que estava vivo.
Deixou de ser um movimento gracioso no mesmo momento que viu arrancada a cabeça de seu dedo, pela tesoura.
Não bastasse a má sorte do adeus à cabeça do dedo, sua mãe, não tanto por emoção mas por susto, terror ou desgosto, desmaiou ali mesmo ao primeiro vislumbre do que seria denominado por coelho esfolado pela enfermeira de serviço.
Assim se deu por iniciada a saga desastrosa que seria a sua vida e, naturalmente, a sua morte.
Podia descrever uma série de peripécias dignas de apontamento minucioso, no entanto, privarei os leitores de soltar excessivas lágrimas, sejam de riso ou de pena, escolhendo apenas alguns detalhes escabrosos da existência de Clumsy.
A sua infância poderá dizer-se que até foi sorridente, não tanto para ele mas para os que o rodeavam, tendo ele sofrido de todo o tipo de gozações e de acontecimentos que as provocavam.
Passou pela acne exarcebada, pela mudança de voz esganiçada, pelo aparecimento tardio dos primeiros pêlos no buço, que se assemelhava a uma plantação levada a cabo por alguém demasiado embriagado para o efeito...
Recebeu beijinhos da sua mãe até à entrada na faculdade, acompanhados de um queque de noz e um leitinho com chocolate. E quando digo entrada, era mesmo entrada. O portão de todas as escolas por onde passou.
Não que Clumsy não gostasse do queque e do leite... só não lhe agradava particularmente partilhar o momento com todos os que o rodeavam! E eram sempre muitos nestas alturas.
Passou pelos vexames mais cretinos e previsíveis: levar papel higiénico agarrado às solas, pelos corredores da escola, ter o nariz pouco limpo ou o fecho das calças aberto, enquanto apresentava trabalhos, chegar à escola primária com as calças molhadas da chuva permitindo à turma toda saber que usava collants debaixo das calças, após insistência da professora para que secasse as calças no aquecedor da sala... Ou quando teve que descalçar os sapatos molhados e mostrou as peúgas que tão desprezadas eram pela sua mãe, de tão rotas que estavam. "Foram prenda da minha avó", reclamava ele... Na verdade a avó não lhe ligava pevides, mas eram as únicas que tinha conseguido sem raquetes de ténis e escondia-as da mãe sempre que podia.
A única coisa sensata, aliás, que essa avó lhe tinha feito, percebia-o agora, tinha sido avisa-lo que usasse sempre meias e cuecas decentes e mantivesse as unhas cortadas, que nunca se sabia quando não íamos parar ao hospital mostrar as pobrezas...
Essa avó não tinha tido problemas com isso... quando morreu no hospital, tinha sido levada directa do banho... roupa não foi problema.
Mas conforme passavam os anos, mais patética se revelava a sua existência enaltecida por grandiosos acontecimentos. E quando digo grandiosos, não me refiro a acontecimentos notáveis, dignos de uma enciclopédia, de um livro de história, de um livro qualquer...
Euristides Clumsy nem no amor teve sorte. Teve por uns tempos, namorando com a dona do seu coração... mas o seu pedido de casamento frente a toda a família, incluindo a irmã gémea da sua amada, teve graves consequências. Sem falar na ofensa que foi para toda a família que, apesar de tudo, julgava suspeitar já de algo assim desde há muito pelas insinuações constantes da dita gémea.
Pois fora acontecer que esse pedido de casamento foi feito à gémea errada e pensando ele que pedia a mão a uma rapariga doce e honrada, meiga e dedicada, tal como ele apreciava, teve o infortúnio de tomar por sua noiva a gémea em tudo oposta.
Clumsy inicialmente não percebeu o desprezo da família, nem o desmaio da outra gémea que acabou por a levar à morte de desgosto amoroso.
Clumsy não percebeu muita coisa, até começar, já depois de casado, a ouvir falar em tendências sado-maso, preferências por máscaras de latex, afogamentos, estrangulamentos, chicotes e palavras-passe. Na verdade muito daquele vocabulário estava, para ele, descontextualizado, pois para haver afogamentos era preciso estar na praia, no rio, na piscina, para haver máscaras era preciso ser carnaval e palavra-passe era coisa para computador...
Clumsy não percebeu, até ao dia. E noite. E tarde.
Se a primeira gémea era uma doce flor perfumada que murchou na falta do seu sol, esta era uma planta carnívora (se de facto comessem pessoas) com uma vítima perfeita.
Clumsy mirrou e em nada melhorou no seu estatuto de desastrado.
... (continua)
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Ondulando e Rabeando
Chazadas e Xaxadas
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Em boca fechada não entra mosca nem sai disparate!
Para além de não ter a boca na testa com ela, (tinha-a deixado em situações deveras embaraçosas antes) tinha deixado a outra boca em casa.
Deixou-a fechada numa caixa, com algodão, enfiada num saquinho de chita e com fecho, não fosse o Diabo tecê-las.
Colou os sobrolhos numa posição algo estranha, mas nada denunciadora, não fosse o Diabo tecê-las.
Quanto às pestanas, eram poucas, mas resolveu corta-las rentes, para que qualquer pestanejar suspeito ficasse de fora, não fosse o Diabo tecê-las.
No nariz espetou uma mola, bem apertada, porque qualquer cheiro delicioso ou nauseabundo podia provocar um trejeito manhoso, suspeito e...não fosse o Diabo tecê-las!
Achou que seria melhor também atar os braços com uma corda, de lado, para que as mãos não tocassem sequer entre si. Podiam calhar gestos estranhos, uma espécie de sinais secretos e não fosse o Diabo tecê-las!!
Era um pouco coxa, mas até esse coxear podia dar ares de rabear, de balouçar a coxa, por isso atou a perna coxa e foi ao pé coxinho, mas sempre receando que o balouçar da saia fosse pouco respeitoso, quase convite, quase exibindo sua coxidão e inchaço. E não queria nada disso! Não, não, não fosse o Diabo tecê-las, pois!
Mas tal silêncio e quietude era cá um mistério...
-Devo preocupar-me com a tua presença?
- Mnhmmmnhhmmmmm...
Foi a correr a casa, ao pé coxinho, abriu a caixa, abriu o fecho da bolsa de chita, arredou o algodão, colocou a boca no sítio e ainda engasgada com restos de algodão, perguntou ao telefone (sem escutas, esperava):
- Que posso eu dizer?!
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Sonhos repetidos tendem a revelar... insanidades!
Lá onde a espera leva ao desespero enquanto se troca o passo e o abraço por dá cá esta palha e mais uma beijoca, espera lá quantos já somos.
Coisa dificil para alguém com medo de voar mais alto que as pernas (onde é que eu já ouvi isto) e sem dinheiro para o rebuçado da semana ou mandar tocar o pífaro ao passaroco do vizinho que é o maior artista da rua.
Depois achei melhor aterrar e fui a correr para onde repicam e me repenicam os sinos a horas impróprias e onde o pão com chouriço sabe pela alma e me deixa "asiática".
Onde ler as linhas de um livro com olhos baços tem mais graça enquanto se pergunta se mais alguém está a ler em hora de contar ovelhas a saltar nuvens de marshmallows, já que não lhe ouve o livro tombar e caír no dedo do pé do anão imaginário.
Também na outra noite para lá viajei, mas só levava leggins e túnicas e era época de salamaleque, não ficava bem.
Bem tentei que alguém se escapasse comigo, mas os acepipes chamavam e não engordavam, que isto é Verão e carne é crime e o mel é proíbido.
Resolvi acordar e fazer uma lista das malas e das máscaras e umas receitas anti-não como isso!
Enfiei a custo uma pitada de decência que a coisa tende a descambar e enchi-me de capuccinos vários que não posso deixar caír o livro, que em baixo dorme gente.
Ic! Solucei e preciso respirar! Até amanhã!
terça-feira, 30 de março de 2010
Cabelo cor-de-rato era aliás coisa que só da boca dela podia saír... E a si sempre soltara gargalhadas, interiores, exteriores, de boca aberta ou de esgar.
Que isto às vezes tem que se disfarçar!
Um olhar de soslaio de uma fazia a mão da outra rolar até à boca para segredos de olho espichado pelo canto.
Para os de fora, um a coisa feia, de gente má. Para elas, um entretém nem sempre maldoso, de quem absorve tiques e hábitos alheios, de gente que observam há anos a fio e outros que chegam e ficam iguais e se movimentam no mesmo ritmo ou falta dele...
Que isto do ritmo é coisa que se lhes cai como mossa no corpo. Não o ritmo, a falta dele.
Por vezes também lhe dá ganas de a estrangular.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Deslarga
Pega
Deslarga
Ela sabia que a palavra deslarga estava incorrecta, mas importava?
Ele ria sempre com a dita baboseira e imitava-a com aquela vozinha estridente de boneco de borracha: "Deeeeslaaargaaa-meeee"!
Por isso valia a pena manter o disparate.
E dizia para os seus botões:
Pega
Deslarga...
Pega e emprega e é a desgraça
Deslarga e começa a ganhar outra graça.
Pega, peca, esfrega cheia de graça... vem a desgraça!
Deslarga, alguém pega...
Ai que graça!
Oh desgraça...
Se fugir o bicho pega
Se ficar o bicho come
Agora apeteceu-me escrever isto. Pronto!
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Pit Bola partiu para o Paraíso dos presuntos e coxas de frango, ou é nisto que Golondrina quer acreditar.
Não terá outra parceira como esta e ainda lhe dá a boa noite quando chega, por engano.
Partiu num dia de chuva e Golondrina lamentou... Pit Bola odiava molhar as patas e nem teve tempo para se despedir.
Num dia estava, noutro dia era memória fresca apenas...
Pit Bola aparece-lhe todos os dias, com ar de quem foi apenas de férias, no monitor. É pior, dizem-lhe, é melhor, diz Golondrina. Fica-se-me aqui, junto ao olho e ao coração.
Não estava lá para ela e lamenta-o todos os dias.
Diz Boa noite todas as noites, mas não tem como a aconchegar nem se aconchegar...
terça-feira, 20 de outubro de 2009
_ Ei! Espera aí! Perdias tudo?! Então, vais casar, tens uma mulher que te adora, não se vê sem ti nem consegue conceber tal coisa... Fazes o que gostas, com quem gostas, onde gostas, tens bons amigos. Todos se dão, o teus pais estão radiantes...
Ele continuou... Que mania, virem para aqui interromper, como se fizessem parte da história.
_ Como assim?! Somos amigos, não somos? Faço parte da tua vida, não?!
Humpf... Pedalava furiosamente, vento nos seus cabelos desalinhados.
Isto de os deixar crescer talvez não fosse boa ideia... queria mudar as coisas,a vida, o medo, os grilhões; o raio das correntes que lhe atavam os pés, com nome "cocozinho"... e disseram-lhe um dia "quando quero mudar algo na minha vida, dou uma tesourada no cabelo, mudo de penteado".
_ Quê? Que disparate... que criatura diz uma barbaridade dessas?!
Fazia de conta que não, mas o menor disparate que essa tal criatura dizia parecia-lhe sempre imbuído de uma sabedoria modesta mas certeira. Prova disso era não resistir em espreitar os diários que mantinha na net... Isso e querer saber secretamente se estava melhor ou pior sem ele. Se ele existia sequer.
_ Mas de que raio estás tu a falar?!
Alguém diga a este cretino que esta história é minha, por favor?!!
Mas, continuando, pensava no penteado. Pois... se algo tinha mudado, tinha sido para algo estranhamente pior. Quer dizer, não era o que diziam os que o rodeavam.
Agora é que ele estava bem! Almas gémeas, diziam! Se calhar gémeas demais, pensava.
Ou estaria bem? Onde estava a tal dor de barriga, a borboleta no estômago?!
Tinha ideia que a dor de barriga que sentia não podia adivinhar nada de bom. E decididamente não eram borboletas! No máximo morcegos vampirescos, abutres!
Depois de arrumar a bicicleta vou rapar o cabelo, decidiu.
_ Vais o quê?
Humpf...ainda não o levaram...
Vou rapar o cabelo e vou dar uma volta nisto, nesta desarrumação.
_Tarde demais, meu amigo! Estás afundadinho. Que vais dizer aos teus pais? As pais dela! Aos teus amigos! Como vais explicar? Que uma cabeleireireira psíquica ou psicóloga barata te disse que rapar é o que está a dar? Rapar da tua vida cabelos, pessoas, ideais...
Sabia agora que aquela vozinha irritante era a sua consciência. Uma chata da pior espécia, que tinha crescido habituada a repressões e a bons costumes.
Há que parecer bem! Deixa a farra para o imaginário, a indecência para a fantasia, o corpo para o pedalar: queimar gorduras, desejos e vontades, arrependimentos.
Chega a casa, beija a sua quase mulher e diz um amo-te mal amanhado enquanto se prepara para ir a net.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Treslouquices?
- Ah...deram-me um anel de noivado!
- A sério?
- Não.
- Então, que tens lido?
- Blogs.
- Mas não gostavas disso!!!
- Isso era antes...às escondidas é mais sedutor...
-Então, és feliz?
- Que queres dizer com isso?
- ?! Se és feliz...
- Opá...estou estável, não me chateia a cabeça, não salta muito à vista, não precisa de muita acção para ser feliz... estou bem.
- Mas feliz?
- Não percebi...
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Ia ao encontro de alguém ou o contrário, não sabia bem. Tinha-se esquecido do ponto de encontro e de quem ia encontrar.
Quando tinha assim umas baforadas de memória, punha-se a caminho, como se estivesse muito decidida!
_ Eia! Um rio de águas cristalinas!! Eu cá é que não vou perder isto! Só assim um mergulhito, um refrescar-me, assim de leve, de repente... Vendo bem, se me apanharem assim fresca, concerteza será bem melhor!
Ou então parava para um pastel de nata. _ Que shot fantástico! Já devo estar atrasada, mas se for mais alegre deve ser bem melhor, não é?!
Desconfio que F. andou nisto muito tempo... passava o Verão, o Inverno e aí era uma sauna ou um aquecedor a óleo que a travava, quem sabe um bar quentinho, uma tripa em Aveiro, uma ginginha em Óbidos, um chocolate quente em Coimbra, um tinto em Lisboa, um tango... Desconfio que correu o país, desculpando-se que era bem melhor se chegasse mais quente, mais fresca, mais alegre, mais docinha...
_ És feliz assim?
_ Claro que sim! E tu, já encontraste a Felicidade?
_ Huumm... acho que... Desconfio que ela é que ainda não me encontrou!
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Tinha esta paixonite aguda por D. desde sempre. E desconfiava que era coisa para durar uma vida de tartaruga!
Não pensava nele todos os dias, não se lembrava do seu cheiro, era mesmo capaz de passar meses sem o ver. Só poderia ser mesmo assim, pensava...
L. já conhecia D. há muito. Não conhecer de "olá tudo bem, vamos tomar um café", mas um conhecer de manhas, de cama, de copos e de arrufos, de estou-te a topar mas vou fazer que não. Um conhecer de adeus mas fica para sempre.
E D. foi ficando, para contentamento de L., que desejava que fosse de contentamento para D.. Assim uma história confusa e de muita comichão, como eles mesmos o eram.
Quando se voltavam a ver, a coisa custava a arrancar; era um incómodo de bicho a morder ou de açúcar no corpo, sabe-se lá, um repente de língua afiada.
Depois o incómodo passava e estava na hora de novo adeus. Adeus, espera lá mais um bocado que tenho muitas mais abelhas para te atirar, um espinhito ou outro para lançar, junto com mel, perfume e umas palmadas nas costas.
Era uma mixórdia, uma espécie de amor platónico. Era isso, era um amor platónico pensava L. muitas vezes... mas arrepiava. Não era nada!
L. lá era dessas coisas?! Não era cá de amores sem línguas embrulhadas! E os toques e afagos? E os desejos e os calores?! Não...nada disso! Era assim mais...
...
- És feliz assim?
- Claro que sim! E tu, já encontraste a Felicidade?
- Huumm... acho que...
terça-feira, 1 de setembro de 2009
1:30 Está na hora!
- Juro! - dizia ele convicto, imaginando já todo o filme.
Na verdade, desde que entrara num filme, julgava-se muito conhecedor. Do quê? Não sei...
- A esta míuda, estás a ouvir mana, a esta miúda vou-lhe pôr uma motosserra nas unhas! Hei-de fotografá-la assim! Estás a ouvir mana?
Tudo era mana para ele. Até o amigo do lado.
- Estás a ver aquele palácio? Tu não sabes o que é aquele palácio, mana!
- Não... só lá durmo...
Impaciente, já só conseguia lançar umas respostas secas, olhando para o lado e imaginando com alguma satisfação o que faria se tivesse mesmo, naquele momento, uma motosserra nas unhas...
Ele, contrariado com a resposta, cuspiu um "pois, vais lá nas férias! O que não sabes é que aquilo está cheio de canhões!"
- Quem dera - pensa. Dava-lhe tão belo uso neste momento... Motosserra...canhão... estou indecisa. Pelo menos isto mantia-lhe um sorriso, embora já enregelado. A hora do pão quente aproximava-se e planeava grandes vinganças. Alguém tinha que lhe comprar o pão com chouriço...
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Se bem que ainda hoje sou bem capaz de dar ao pedal e fazer a bela zombie dance a ouvir esta:
quinta-feira, 18 de junho de 2009
- Não, não...
- Vai desejar saco?
- Como assim?! Não dão sacos?!
- Esta é uma caixa ecológica, não fornecemos sacos gratuitos...
- Pronto, dê-me...ora deixe cá ver... 4 sacos deve dar!
Pi... pi... pi... (som irritante dos produtos a passar no scanner)
Mas temos também esta variedade de sacos ecológicos... pode mexer, ver a textura, a qualidade! Ora veja! Que jeitinho lhe dava um destes, hein?! E escusava de pagar destes plásticos mais fracos...
Pi... pi... pi...
- São $$$, por favor.
- Aqui está.
- Já agora, não deseja carregar o seu telemóvel?
- Não, obrigado.
- Vá lá...olhe que damos brindes!
- Sim, mas agora não m...
- Ora, sente-se aí no sofázinho, beba um chá. Então ouça lá, pode perfeitamente carregar aqui o seu telemóvel! ainda leva um brindinho maravilhoso consigo... quer coisa melhor?! E já agora que aqui está...
- Mas eu tenho alguma pressa em...
- Sim, sim, é um segundo apenas! Vou-lhe dar este folheto... a senhora não tem cartão J..., certo? Leva este folheto ali ao Balcão do cartão J... É só vantagens! E ainda lhe oferecemos um vale de compras no valor de $$, em compras com cartão J... com valor igual ou superior a $$!!
Bla bla bla bla...
- Desculpe, mas..tenho mesmo...
- Espere só um segundo! O seu código postal, por favor? É cliente J...? Onde faz habitualmente as suas compras? Bla bla bla... E os saquinhos ecológicos, não quer? de certeza? Veja lá se tem dedos para esses todos!! Um de rodas era bom para as costas! os de tecido estão na moda! Não quer, não? Mas espere! agora até temos um desconto todas as ..ª feiras para quem usar o cartão J...! pense bem! E não se esqueça do folheto!
(Claro que o sofá é delírio... mas já deve ter faltado mais! Devem saír caros...)
- Estou sim? É do serviço de urgências? Por favor, uma ambulância para o J..., que uma senhora desmaiou de aborrecimento...
terça-feira, 9 de junho de 2009
Expressões catitas (ou não) à parte, se há coisa que preciso mesmo é de dançar.
E há algo em comum entre mim e quem, de amizade, me é próximo! Sentimos essa necessidade e não temos pudores em fazê-lo. Dançar, entenda-se.
Não há cá abanar o pezito ao de leve, ou bambolear a cabeça languidamente ou fazer boquinhas ao som da música.
Saltamos logo para a pista, improvisada ou não, e por momentos pode parecer aos mais distraídos que estamos mesmo em pleno exorcismo ou algum ataque estranho. Quem sabe até um ataque de pulgas nervosas!
Podemos fazer as caras mais tontas, os gestos mais desadequados, suar as estopinhas, dar cabo das articulações destreinadas...mas nesses instantes devemos ser quem mais queima calorias pelas redondezas e quem vai mais feliz e satisfeito para casa.
Sim, que os acontecimentos por aqui são escassos e temos que aproveitar ao máximo.
Embora acredite que se fosse todos os fins-de-semana, valendo a pena, aproveitavamos igualmente...
E eu estaria tãããããoooo mais em forma!!!
sábado, 6 de junho de 2009
- Uma dor de barriga... fui ao Zé Manel dos Ossos... Aquele arroz de feijão, muito bom, sabe? Mas tenho barriguinha fraca... sabe? Pois... não dava... avisar na casa-de-banho... pareceu-me que não era de bom tom.
- Hoje foram problemas de família... nem quero falar nisso...terrível!
- Mas morreu alguém?
- Credo, não! (lá ia eu dizer algo assim...se depois morresse mesmo alguém, era o corroer dos remorsos)
- Mas tem que avisar! estão os colegas a contar consigo!!!! Assim não pode ser!
- Compreendo, compreendo... Mas nem pensei, terrível, terrível! Bem, tenho que ir, estou atrasada.
- Uma enxaqueca... ui!
- Vinha a caminho, quase a chegar, vem um carro... SPLAAASH! Toda emsopadinha...ir a casa, secar-me, vestir outra coisa... quer dizer, não deu..
- Fiquei retida no wc...
- Outra vez???
- Não...desta vez não conseguia...
- Grfnh....
- Estou internada.
- Então??
- Estou.... FAARTAAAAAA!
quinta-feira, 14 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Os Anos de Ti para Mim
pões a mesa do nosso amor: uma cama entre o verão e o
outono.
Bebemos o que alguém preparou, que não era eu, nem tu, nem
um terceiro:
sorvemos um último vazio.
Miramo-nos nos espelhos do mar profundo e passamos mais
depressa um ao outro os alimentos:
a noite é a noite, começa com a manhã,
é ela que me deita a teu lado.
Paul Celan, in "Papoila e Memória"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno



















