quinta-feira, 26 de março de 2015


Anoiteço-me.

Por tempo indeterminado.

Sem espaço para
portas que se fecham
janelas que se abrem
- a menos que lhes queira
medir as alturas
como meço desesperos pelo salto.

Queria eu ser
- de momento -
velho gordo
careca
decadente

de palavreado de filho da puta
na ponta da língua.

Escrever sobre foder
como quem escreve sobre a paisagem
 - postal ilustrado de um pôr-se-sol absurdo
e um corpo semi-nu em tons laranja.

Minto.

Nunca quis ser homem.

Mas que importam os meus quereres?
Que importa esta figura pequena
saltitante
a quem só vêem
(e insistem em só querer ver)
o sapato vermelho bailarino
que condiz com a lancheira de bolinhas brancas
em passo alegrete e gargalhada solta?!
Que importa
se esta figura pequena
a quem chamam de refilona
cheios de graça - julgam -
guincha por dentro?
Se tem entalado
um palavreado de filho da puta
pronto a estoirar?

Se a vida, que se chame vida,
- e não este contante meter
o buraquinho esquerdo do nariz
fora d'água
para conseguir apanhar 
uma merdice de ar que ainda a deixam ter por direito -
insiste em desfazer-se a cada passo?!

Que lhes importa o estrebuchar furioso,
a raiva explosiva
em silêncios
pontapeando sacos na marquise
enquanto se queixa que a casa é pequena
para todos os seus sonhos...
que tem morto
um a um
com a puta da pá imaginária
que tanto faz rir o Palerma...

Culpada a criatura
que bailaroca usando um sorriso
com que constroi a sua casa

que usa a máscara em busca de um conforto
em si mesma.

Culpada a criatura que ainda crê.
Agora não mais...

Vai melhorar...
Vai.

Diz que sim.
Que um dia tudo é silêncio.
Eu é que fugi a essa marcha.

Só queria encontrar a razão.

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