quinta-feira, 17 de maio de 2012

Relativizar

Devia haver qualquer coisa de reconfortante em voltar ao hospital, em rotineira lembrança.
Tenho duas pernas, dois braços e só perco a cabeça de quando em vez.
Bom, falta-me parte do perónio, parte do pulmão esquerdo, ainda me quiseram mexer no direito, tendo desistido depois de eu sugerir um fecho-de-correr para abrirem sempre que assim o desejassem. Também o meu músculo do gémeo da perna direita desistiu completamente de mim.
Sou assim uma espécie de monstro de Frankenstein, mas bem mais atraente e ainda balbuciando algumas tretas perceptíveis.

Vejo ou revejo pessoas que lutaram a mesma luta, mas que se perderam em corpo, em mente, mas que se agarram como sanguessugas a uma espécie de vida... ou as que perderam parte de si, mas são inteiras.

E há ainda as que foram, que partiram, numa realidade que já se afasta de mim.
Há qualquer coisa que me une a estas pessoas, em especial nestes dias de rotina, de lembrança indesejada, mas talvez necessária. 
Não me identifico com nenhuma delas; mas verdade seja dita, dos dedos de uma mão devem sobejar uns quantos ao contar neles as com que me identifico; no entanto, este sentir, este relembrar, o olhar, fica sempre e une.
Eu fui das que manteve todos os membros visíveis, que perdeu a cabeça de diversas e más formas, que beirou a insanidade mental, muita dela em silêncio, mas que se agarrou de unhas e dentes a uma vida que de promissora nada tinha.
Continua a  não ser. 
Mas ainda hoje admiro a miúda de 17 anos que se agarrou a si mesma. Numa espiral caótica.
...
Ir ao hospital, deveria ser reconfortante. 


Além de que qualquer coisa que faça a seguir vai parecer fantástico (mas só porque não quero escrever "espectacular!"), colorido.
Diria mesmo que me devia sentir brilhar!

2 comentários:

Post-It disse...

... andas sempre a lutar pela vida e a dar murros na mesa... claro que por mais vitalidade que se tenha, ( e tens muita), volta e meia a sensação e/ou o sentimento de injustiça e crueldade deve ser imenso e fazer mossa... (por isso és... naturalmente de esquerda! :P e sem nada de caviar, ah ah.
mas não era isto que eu queria dizer, eh eh...)
não sei... penso rápido que há qualquer coisa de inexpressável na vida... e que muito por ser finita vale a pena viver... porque apesar das penas há a alegria... que vamos tendo e que (re)encontramos por aí... num dia de sol, no chocolate, nos amigos, nos amigos peludos, naquilo que lemos, ouvimos, criamos... e já que cá andamos!...
(e agora podia ir escrever para a Maria...)
:)

Ninguém disse...

Chato chato é se qualquer dia vou sentir muita alegria para algum hospício!
Ele há dias que já não me reconheço.
Mas canta o outro "Arranja-me um emprego" (o Euromilhões serve ainda mais, como uma luvinha, eu diria)e isto passa-me.
As preocupações sobejantes, são isso mesmo: sobejantes.
E o que sobra é porque não faz falta. ;)
Qual velhinha a falar, haja saúde (e acrescento agora eu: e dinheirinho) e tudo há-de correr pelo melhor.